Pergunte a um sul-mato-grossense qual é o maior problema do estado e a resposta mais provável é: falta médico. Em levantamento divulgado neste mês pelo Instituto Ranking Pesquisa, a carência de médicos apareceu como o principal problema de Mato Grosso do Sul para 34,6% dos entrevistados, à frente da falta de remédios e exames (28%), da corrupção (24,8%), dos impostos excessivos (18,2%) e das estradas (16%).
Agora o dado que não fecha com a percepção: nunca houve tanto médico em Mato Grosso do Sul quanto agora.
Os números do Conselho Federal de Medicina
Segundo a Demografia Médica levantada pelo Conselho Federal de Medicina e divulgada pelo CRM-MS, o estado tinha 3.983 médicos em 2011. Chegou a 8.494. É um crescimento de 112% em treze anos — mais que o dobro.
A densidade acompanhou. A razão saltou de 1,63 para 3,02 médicos por mil habitantes. Para efeito de comparação, o parâmetro historicamente citado pela Organização Mundial da Saúde como piso razoável é de cerca de 1 médico por mil habitantes. Mato Grosso do Sul está no triplo disso.
Se o problema fosse quantidade, estaria resolvido. Não está. Então o problema é outro.
O paradoxo tem endereço: Campo Grande
Aqui a estatística para de ser abstrata e vira geografia.
Dos 8.494 médicos do estado, 4.839 atuam em Campo Grande. São 57% de todos os médicos de Mato Grosso do Sul concentrados em uma única cidade. Os outros 3.655 se dividem por todo o resto do estado.
Quando você abre a densidade por recorte, o abismo aparece inteiro:
- Campo Grande: 5,28 médicos por mil habitantes
- Interior: 1,93 médico por mil habitantes
A capital tem quase três vezes mais médico por habitante do que o interior. Um morador de Campo Grande vive num estado com densidade médica comparável à de país rico. Um morador de Sete Quedas, de Japorã ou de Paranhos vive num estado completamente diferente — e ambos respondem à mesma pesquisa.
É por isso que 34,6% dizem que falta médico enquanto o estado dobra o número de médicos. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. A média estadual de 3,02 é uma ficção estatística: ela descreve um estado que não existe, feito de uma capital saturada e de um interior descoberto, dissolvidos num número só.
Não é só onde. É quem.
O segundo recorte é a especialização. Dos 8.494 médicos de MS, 4.487 têm Registro de Qualificação de Especialidade (RQE) e 4.007 não têm. Ou seja: pouco mais da metade é especialista.
Isso conversa direto com a segunda maior queixa da pesquisa — falta de remédios e exames, com 28%. Exame não se resolve com clínico geral. Exame se resolve com especialista, com equipamento e com regulação funcionando. E especialista concentra ainda mais que médico geral, porque especialista precisa de estrutura, de volume de casos e de retaguarda hospitalar para exercer a especialidade. Nada disso existe numa cidade de oito mil habitantes.
O perfil do médico sul-mato-grossense, aliás, é o de um profissional maduro: idade média de 43,83 anos e 17,35 anos de formado, em média. Não é uma categoria de recém-chegados improvisando. É gente estabelecida — e gente estabelecida se estabelece onde há mercado, escola para os filhos e hospital para trabalhar.
O alerta que veio junto com o dado
O próprio CFM fez questão de acompanhar os números de uma ressalva. O presidente da entidade, José Hiran Gallo, afirmou que "a criação desenfreada de escolas médicas sem padrões técnicos mínimos afeta a qualidade da formação" e defendeu que o crescimento no número de médicos precisa vir com melhores condições de trabalho e planejamento — não apenas com expansão numérica.
A leitura é dura e é honesta: formar mais médico não é a mesma coisa que atender mais gente. Se o profissional formado vai para onde já há profissional demais, o número nacional melhora e a fila de Coronel Sapucaia continua igual.
O que efetivamente muda esse jogo
Se o gargalo é distribuição e não volume, a política pública que funciona é a que mexe em distribuição. Na prática, três frentes:
Fixação, não só provimento. Levar médico ao interior por doze meses e vê-lo ir embora no décimo terceiro não resolve — só maquia o indicador. Fixar exige moradia, previsibilidade de carreira e, principalmente, retaguarda: nenhum médico quer ser o único responsável por uma emergência a 300 km do hospital de referência.
Regionalização de verdade. Não adianta cada município querer o seu especialista. Adianta ter polos regionais com escala suficiente para sustentar especialidade, equipamento e plantão — e transporte sanitário que funcione entre a ponta e o polo. Isso já é diretriz do SUS há décadas; a distância entre a diretriz e o mapa é que segue grande.
Telessaúde com dente. Teleconsulta e telediagnóstico não substituem médico presente, mas resolvem parte relevante do que hoje vira viagem de 200 km para uma conversa de dez minutos. É a única frente que escala rápido num estado do tamanho do nosso.
O que os 34,6% estão dizendo
Vale terminar por onde a pesquisa começou. Quando um terço do estado diz que o maior problema é falta de médico, essas pessoas não estão erradas por contrariarem a estatística. Elas estão descrevendo a experiência delas — e a experiência delas é a fila, a viagem, o especialista que só atende na capital, o exame marcado para daqui a oito meses.
O dado do CFM não desmente essa queixa. Ele explica de onde ela vem. Mato Grosso do Sul não tem poucos médicos. Mato Grosso do Sul tem muitos médicos no lugar errado — e a pesquisa é, no fim das contas, o interior avisando isso em voz alta.