A história de Mato Grosso do Sul: da divisão de 1977 aos dias atuais
A história de Mato Grosso do Sul é recente, mas carrega raízes profundas que remontam ao período colonial. Criado em 1977, o estado nasceu de um longo processo de ocupação, conflitos e reivindicações políticas que moldaram uma identidade própria na porção sul do antigo Mato Grosso. Este guia apresenta um panorama completo dessa trajetória, desde os primeiros ciclos econômicos até os desafios contemporâneos, com dados oficiais e uma análise aprofundada do impacto da divisão na economia e na cultura local.
A divisão não foi um ato isolado, mas o desfecho de décadas de movimentos separatistas e de um contexto nacional específico. Compreender a origem do estado é essencial para entender seu desenvolvimento atual, seus potenciais e as peculiaridades que o tornam único no cenário nacional.
1. Entenda o contexto: por que Mato Grosso do Sul foi criado?
A criação do estado não foi um capricho político, mas a resposta a um conjunto de fatores históricos, econômicos e sociais que diferenciavam a região sul do antigo Mato Grosso do restante do território.
Antecedentes históricos: a região sul do antigo Mato Grosso, ocupação e desenvolvimento
A ocupação da região sul do antigo Mato Grosso começou de forma mais efetiva no século XVIII, impulsionada pela mineração. A descoberta de ouro na região de Cuiabá atraiu bandeirantes que, partindo de São Paulo, percorriam longas distâncias pelos rios Tietê, Paraná e Pardo. No entanto, a região sul, onde hoje fica Mato Grosso do Sul, servia mais como rota de passagem do que como destino final.
Foi a pecuária que consolidou a ocupação do sul. As vastas planícies, especialmente na região da atual fronteira com o Paraguai, eram ideais para a criação de gado. Fazendas se estabeleceram, formando uma elite agropastoril com interesses econômicos distintos dos mineradores do norte. A erva-mate, extraída em grandes quantidades na região de Concepción (Paraguai) e no sul do atual estado, também foi um motor econômico importante, conectando a região aos mercados do Prata.
Ciclos econômicos e a formação da identidade sul-mato-grossense
A identidade sul-mato-grossense foi forjada nesses ciclos econômicos. A pecuária extensiva, com suas grandes fazendas e a figura do peão de boiadeiro, criou uma cultura de trabalho e uma hierarquia social próprias. A influência da erva-mate, muitas vezes explorada por empresas estrangeiras, gerou um sentimento de exploração e abandono por parte do governo central, sediado em Cuiabá.
Essa combinação de pecuária forte, integração econômica com o sul do Brasil e os países do Prata, e a sensação de abandono político, criou um caldo de cultura favorável ao separatismo. A distância de Cuiabá, o descaso com a infraestrutura e a diferença de interesses econômicos eram queixas constantes.
Movimentos separatistas e a influência da Guerra do Paraguai
A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi um divisor de águas. O sul do Mato Grosso foi o principal palco de conflitos, com cidades como Corumbá sendo ocupadas e saqueadas. A guerra evidenciou a fragilidade da defesa da região e a necessidade de uma administração mais presente e ágil. Durante o conflito, a região sul se organizou para a defesa, criando uma estrutura própria e fortalecendo um senso de identidade e autonomia que não se dissipou com o fim da guerra.
Após o conflito, a região foi reconstruída com ajuda de migrantes de outras partes do Brasil, especialmente do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, que reforçaram a cultura local. A ferrovia Noroeste do Brasil (NOB), inaugurada em 1914, ligou a região a São Paulo e ao restante do país, integrando-a economicamente e intensificando o fluxo de pessoas e mercadorias, ao mesmo tempo em que aprofundava a sensação de que o centro das decisões estava cada vez mais distante.
Crescimento populacional e demandas por autonomia administrativa
Ao longo do século XX, o sul do Mato Grosso cresceu demograficamente e economicamente em um ritmo muito superior ao norte. A partir da década de 1960, com a modernização da agropecuária e a abertura de novas fronteiras agrícolas, a região se tornou um polo dinâmico. No entanto, a administração estadual, sediada em Cuiabá, não acompanhava esse desenvolvimento. A arrecadação de impostos era direcionada para o norte, enquanto a infraestrutura do sul era negligenciada. Essa disparidade alimentou os movimentos autonomistas, que ganharam força na década de 1970, culminando na criação do novo estado.
2. Conheça o processo de divisão: da proposta à lei
A divisão de Mato Grosso do Sul foi um processo longo, com várias tentativas e recuos. A decisão final, tomada durante o regime militar, foi um marco na reorganização territorial do país.
As primeiras propostas de divisão do estado de Mato Grosso (décadas de 1930 a 1970)
A ideia de dividir o Mato Grosso não era nova. Na década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas, houve debates sobre a criação de novos territórios federais para melhor administrar regiões distantes. A Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo, também teve reflexos, com lideranças do sul do Mato Grosso apoiando o movimento e defendendo a separação.
Um marco importante foi a criação do Território Federal de Ponta Porã em 1943, durante o Estado Novo. O território abrangia uma vasta área do sul do atual Mato Grosso do Sul, com o objetivo de integrar a região e desenvolver a fronteira. No entanto, o projeto foi extinto em 1946, com o fim do regime, e a área voltou a ser incorporada ao Mato Grosso. Essa experiência, apesar de curta, deixou um legado de organização e mostrou que a região tinha viabilidade administrativa.
O papel do governo militar e a Lei Complementar nº 31
O golpe militar de 1964 trouxe um novo elemento: a necessidade de "integrar para não entregar" e de desenvolver o interior do país. O governo federal via a divisão do Mato Grosso como uma forma de melhorar a gestão e acelerar o desenvolvimento econômico da região Centro-Oeste. Projetos de colonização e a construção de estradas como a BR-163 (Cuiabá-Santarém) e a BR-262 (que liga Campo Grande a Corumbá e ao Triângulo Mineiro) foram fundamentais para integrar a região.
Foi nesse contexto que, em 11 de outubro de 1977, o presidente Ernesto Geisel sancionou a Lei Complementar nº 31, que criou o estado de Mato Grosso do Sul. A decisão foi tomada "de cima para baixo", sem consulta popular, mas atendia a uma antiga reivindicação das elites locais e aos planos do governo federal de reorganizar o território nacional.
Detalhes da divisão: limites, áreas e a transferência da capital
A lei definiu os limites do novo estado, que passou a ocupar cerca de 357.145 km², desmembrados do antigo Mato Grosso. A capital foi definida como Campo Grande, que já era o principal centro econômico e populacional da região. A divisão também estabeleceu a transferência de bens, servidores e da máquina administrativa do estado para a nova unidade federativa.
Reações e consequências imediatas da divisão
A reação à divisão foi mista. No sul, houve euforia e celebração, com a expectativa de que os recursos arrecadados na região fossem finalmente investidos nela. No norte (que permaneceu com o nome de Mato Grosso), a medida foi vista por alguns como um "esquartejamento" do estado e gerou ressentimento. A transição, no entanto, foi conduzida de forma relativamente pacífica, com a criação de uma comissão para tratar dos detalhes da partilha de bens e dívidas.
3. A instalação do novo estado: primeiros passos
A criação legal do estado foi apenas o primeiro passo. A instalação efetiva da máquina administrativa foi um desafio logístico e político gigantesco.
A posse do primeiro governador e a instalação dos poderes
O primeiro governador foi Harry Amorim Costa, um político de Campo Grande, que tomou posse em 1º de janeiro de 1979. Sua missão era estruturar o novo estado do zero. No mesmo ano, foram instaladas a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, em sessões solenes que marcaram o início da vida autônoma do estado.
Organização administrativa: secretarias, órgãos e municípios
Foi necessário criar toda a estrutura administrativa: secretarias de estado (Fazenda, Educação, Saúde, Segurança Pública, etc.), órgãos de planejamento e empresas públicas. A lei também definiu os municípios que fariam parte do novo estado, inicialmente 55, herdados do antigo Mato Grosso. A organização dessa estrutura foi um processo complexo, que envolveu a transferência de servidores e a criação de carreiras próprias.
Desafios iniciais: infraestrutura, economia e integração regional
Os desafios iniciais eram imensos. A infraestrutura era precária, com estradas não pavimentadas e pouca capacidade de comunicação entre as cidades. A economia, embora em crescimento, dependia fortemente da pecuária e da agricultura, com pouca industrialização. A integração regional também era um desafio, pois as regiões do antigo sul (como a de Dourados e a de Corumbá) tinham dinâmicas econômicas e sociais distintas.
A consolidação de Campo Grande como capital e polo econômico
Campo Grande, que já era a maior cidade da região, se consolidou rapidamente como o centro político e econômico do novo estado. A capital atraiu investimentos em infraestrutura, comércio e serviços, e se tornou o principal hub logístico do estado, conectando as regiões produtoras aos mercados consumidores. O crescimento urbano foi intenso, transformando a cidade em uma metrópole regional.
4. Desenvolvimento e transformações: do final do século XX aos dias atuais
Desde a sua criação, Mato Grosso do Sul passou por profundas transformações, tornando-se um dos estados mais dinâmicos do Brasil no agronegócio.
Crescimento do agronegócio: soja, milho, pecuária de corte e a modernização do campo
O agronegócio é o motor da economia sul-mato-grossense. O estado se consolidou como um dos maiores produtores de soja, milho e algodão do país, com altíssima produtividade. A pecuária de corte também é um dos pilares, com um dos maiores rebanhos bovinos do Brasil, cada vez mais tecnificada e focada na qualidade da carne. A modernização do campo, com o uso de tecnologia, genética e manejo sustentável, foi fundamental para esse avanço.
Expansão da indústria, especialmente em alimentos, celulose e álcool
A indústria sul-mato-grossense cresceu ancorada no agronegócio. O setor de alimentos (frigoríficos, laticínios, esmagamento de soja) é o mais tradicional. Nas últimas décadas, o estado se tornou um polo mundial de produção de celulose, com grandes investimentos de empresas como a Suzano e a Eldorado Brasil. A produção de etanol a partir da cana-de-açúcar também tem crescido, com novas usinas sendo instaladas na região de Dourados e na Bolsão.
A importância da logística: rodovias, ferrovias e o corredor bioceânico
A logística é um desafio e uma oportunidade. O estado é cortado por importantes rodovias (BR-163, BR-262, BR-267), mas a dependência do modal rodoviário é alta. A Ferrovia Malha Oeste (antiga NOB) liga Corumbá a Campo Grande e a São Paulo, mas precisa de modernização. O projeto do Corredor Bioceânico, que liga o Brasil aos portos do Chile (Antofagasta, Iquique) passando por Mato Grosso do Sul e Paraguai, é visto como uma das maiores oportunidades para reduzir custos e aumentar a competitividade das exportações do estado.
Desenvolvimento urbano e social: educação, saúde e infraestrutura
O desenvolvimento econômico veio acompanhado de avanços sociais, embora ainda haja muitos desafios. O estado investiu em educação (com a criação de universidades públicas e institutos federais), saúde (com hospitais regionais) e infraestrutura urbana. Cidades como Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá cresceram e se modernizaram, mas ainda enfrentam problemas comuns às cidades brasileiras, como mobilidade, segurança e saneamento básico. A modernização da estrutura judiciária também é pauta constante — o Mato Grosso do Sul terá 6 novas varas da Justiça Federal no interior, o que deve ampliar o acesso da população a serviços essenciais.
Fatos históricos recentes: eventos políticos, econômicos e culturais marcantes
A história recente do estado é marcada por eventos como a ascensão e queda de lideranças políticas locais, a consolidação do agronegócio como força política dominante e a crescente preocupação com a sustentabilidade do Pantanal, especialmente após os incêndios devastadores de 2020. A cultura local, com o tereré e o artesanato indígena, ganhou reconhecimento nacional, e o turismo em Bonito se tornou uma referência mundial em ecoturismo. No campo social, a agilidade de serviços públicos segue como tema sensível — a promessa do governo federal de zerar a fila do INSS até setembro pode ter impactos diretos em Mato Grosso do Sul, que tem boa parcela da população dependente de benefícios previdenciários. Leia também: Lula promete zerar fila do INSS até setembro: como fica Mato Grosso do Sul?
5. Patrimônio histórico e cultura: como preservar a memória do estado
Preservar a história é fundamental para manter viva a identidade sul-mato-grossense. O estado possui um rico patrimônio material e imaterial que conta sua trajetória.
Sítios históricos e museus: Forte de Coimbra, Ruínas de São Francisco, Museu de Arte Contemporânea
- Forte de Coimbra: Localizado em Corumbá, é uma fortificação militar histórica construída no século XVIII para proteger a fronteira oeste do império português. É um dos principais sítios históricos militares do Brasil.
- Ruínas de São Francisco: Em Corumbá, são os restos de uma igreja construída no século XIX, destruída por um incêndio. O local é um marco da arquitetura e da história da cidade.
- Museu de Arte Contemporânea (MARCO): Em Campo Grande, é um importante centro cultural que abriga um acervo de arte moderna e contemporânea, com obras de artistas regionais e nacionais.
- Museu da Imagem e do Som (MIS): Em Campo Grande, preserva a memória audiovisual do estado.
Festas e tradições: tereré, chipa, festejos de São João e a influência indígena e paraguaia
A cultura sul-mato-grossense é um mosaico de influências. O tereré (chimarrão gelado com erva-mate) é um símbolo da identidade local, consumido diariamente pela população. A chipa, um pão de queijo de origem paraguaia, é um lanche típico. Os festejos de São João em junho são celebrados com danças, comidas típicas e fogueiras, especialmente nas cidades do interior. A forte presença das culturas indígena (Guarani, Kaiowá, Terena, Kadiwéu) e paraguaia (devido à fronteira) enriquece a culinária, o artesanato e o vocabulário local.
Iniciativas de preservação do patrimônio histórico e cultural
Diversas iniciativas buscam preservar esse patrimônio. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tem atuação em sítios como o Forte de Coimbra. Secretarias municipais e estaduais de cultura promovem projetos de restauração e educação patrimonial. Festivais como o Festin (Festival de Inverno de Bonito