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MS nunca pesou tanto na celulose do Brasil — e foi justo no trimestre em que a Suzano lucrou 58% menos

MS nunca pesou tanto na celulose do Brasil — e foi justo no trimestre em que a Suzano lucrou 58% menos

Dois números saíram na mesma semana e, lidos juntos, contam a história econômica de Mato Grosso do Sul melhor do que qualquer discurso oficial.

O primeiro: em julho, as unidades de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo concentraram 38,6% de toda a celulose que o Brasil exportou. O segundo: no mesmo período, o lucro líquido da Suzano — dona dessas plantas — caiu para R$ 1,81 bilhão no trimestre, uma queda de 58% em relação ao trimestre anterior e de 64% na comparação com o mesmo período de 2025, quando a companhia havia registrado R$ 5,012 bilhões.

O estado ficou mais importante para a empresa exatamente no trimestre em que a empresa ganhou menos. Entender por que isso aconteceu — e o que significa para quem mora aqui — vale mais do que comemorar ou lamentar qualquer um dos dois dados isoladamente.

O peso que MS ganhou

A capacidade instalada da Suzano em Mato Grosso do Sul é de aproximadamente 5,8 milhões de toneladas por ano. Isso representa 38,5% de toda a capacidade da companhia no Brasil, que soma cerca de 15 milhões de toneladas anuais.

Em outras palavras: quase quatro de cada dez toneladas de celulose que a maior produtora do mundo é capaz de fabricar saem de duas cidades sul-mato-grossenses. Ribas do Rio Pardo, com a fábrica que entrou em operação em 2024, é o que mudou essa conta — foi ela que transformou o Vale da Celulose de polo regional em peça central da estratégia global da empresa.

É um patamar que praticamente nenhum outro setor produtivo do estado alcança. Nem o agro, que é maior em valor total, tem essa concentração geográfica em tão poucos municípios.

Por que o lucro caiu

A queda não veio de menos produção. Veio de preço e de custo.

O volume de vendas no trimestre foi de 3,3 milhões de toneladas — 2,9 milhões de celulose e 406 mil toneladas de papel. A receita líquida ficou em R$ 11,59 bilhões, 13% abaixo dos R$ 13,296 bilhões do mesmo trimestre de 2025. O Ebitda ajustado somou R$ 4,705 bilhões, recuo de 23% na comparação anual, e a margem Ebitda caiu de 46% para 41%.

A companhia atribuiu o desempenho a pressões cambiais e à alta dos custos de insumos, influenciada pela elevação dos preços do petróleo. O custo de produção ficou em R$ 843 por tonelada de celulose.

Traduzindo: vender a mesma coisa passou a render menos, e fabricar passou a custar mais. É um aperto de margem clássico de commodity, e não um problema operacional das fábricas.

O que isso muda — e o que não muda — para o estado

A distinção importa, porque as duas coisas costumam ser confundidas no debate local.

O que não muda no curto prazo: emprego direto na operação e volume produzido. Fábrica de celulose é ativo de capital intensivo, projetada para rodar perto da capacidade máxima independentemente do ciclo de preço — parar custa mais caro do que produzir com margem menor. A produção segue, e o peso de MS na exportação brasileira tende a se manter.

O que muda: a arrecadação vinculada a resultado, o apetite por novos investimentos e o ritmo das obras de expansão. Margem apertada faz empresa adiar decisão de capital, não desligar máquina. Para municípios que fizeram planejamento contando com a próxima fase de expansão, esse é o ponto de atenção real.

O que fica em aberto: o câmbio. Boa parte da conta se resolve no dólar, e nenhuma decisão tomada em Campo Grande ou em Brasília controla isso.

A concentração é força e é risco ao mesmo tempo

Aqui está o ponto que raramente aparece nas notas oficiais.

Ter 38,6% da exportação nacional de um produto saindo de duas cidades é uma posição de força inegável. Gera divisa, atrai logística, justifica ferrovia, financia serviço público. É o tipo de vantagem que estado nenhum recusa.

Mas concentração também é exposição. Quando quase 40% da capacidade de uma empresa global está no seu território, o ciclo de preço de uma commodity internacional passa a ser, na prática, uma variável da sua política fiscal. Um trimestre ruim em Xangai vira uma discussão de orçamento em Três Lagoas.

A resposta madura a isso não é torcer o nariz para a celulose — ela é o que financia boa parte do dinamismo recente do Leste do estado. A resposta é a mesma que qualquer economia de commodity precisa dar: usar o período bom para diversificar a base produtiva e para consolidar a cadeia local de fornecedores e serviços, que é o que sobra quando o preço vira.

O Vale da Celulose já provou que consegue atrair capital de escala mundial. O teste seguinte, menos glamouroso, é provar que consegue transformar isso em economia que não dependa de um único número no relatório trimestral de uma empresa.

Como MS chegou aqui

A posição atual não é acidente nem sorte geográfica isolada. Ela foi construída em cerca de quinze anos, sobre uma combinação bastante específica.

O eucalipto cresce em Mato Grosso do Sul num ciclo mais curto do que na maior parte do mundo — o clima, o solo e o regime de chuvas do Leste do estado entregam produtividade por hectare que poucos lugares alcançam. Isso reduz a distância média entre floresta e fábrica, que é a variável que mais pesa no custo de uma indústria de celulose, porque transportar madeira é caro e transportar celulose pronta é comparativamente barato.

Some-se a isso terra disponível em escala, logística ferroviária conectando ao Porto de Santos e uma sucessão de decisões de investimento que se reforçaram: cada nova planta tornou a seguinte mais viável, porque a cadeia de fornecedores, transportadores e mão de obra especializada já estava montada.

O resultado é o que o dado de julho mostra. Duas cidades sul-mato-grossenses respondendo por quase quatro de cada dez toneladas exportadas por um país que é o maior exportador mundial de celulose de fibra curta.

O que observar daqui para frente

Para quem quer acompanhar sem depender de manchete trimestral, três indicadores dizem mais do que o lucro:

O preço internacional da celulose de fibra curta. É a variável que comanda tudo. Divulgado por consultorias setoriais, ele antecipa em meses o que vai aparecer nos balanços e, depois, na arrecadação estadual.

O câmbio. Receita em dólar, custo majoritariamente em real. Um real mais fraco melhora a margem da empresa e, indiretamente, a atratividade de novos investimentos no estado — ainda que encareça insumos importados.

As decisões de expansão anunciadas. Este é o indicador mais concreto para os municípios. Anúncio de nova linha ou nova planta significa alguns anos de canteiro, milhares de empregos temporários e pressão real sobre moradia, saúde e educação nas cidades envolvidas. Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo já viveram esse ciclo e conhecem tanto o bônus quanto o custo.

Um trimestre de margem apertada não muda nenhum dos três de forma estrutural. Mas uma sequência deles muda — e é aí que o acompanhamento vale a pena.

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