O cônsul-geral do Japão em São Paulo esteve em Campo Grande na sexta-feira, 14 de agosto, para um encontro empresarial na Casa da Indústria. A pauta era comércio, e o que saiu de lá diz bastante sobre onde a economia de Mato Grosso do Sul está tentando crescer.
Três produtos dominaram a conversa: proteína animal, celulose e biocombustível. Os dois primeiros já são realidade consolidada. O terceiro é a aposta.
O frango já é uma relação madura
O número que melhor resume a dependência mútua é este: o Japão responde por 20% de tudo o que Mato Grosso do Sul exporta em carne de frango. É o principal mercado do estado para o produto.
E a concentração é ainda maior quando se olha para cortes específicos. Nas exportações de coxas e sobrecoxas desossadas, 70% do volume vai para o mercado japonês. Não é um cliente entre outros. É praticamente o comprador daquele corte.
A produção que abastece essa rota está distribuída pelo interior. Sidrolândia, Itaquiraí e Aparecida do Taboado aparecem entre os municípios que produzem e exportam frango, o que espalha o efeito da negociação por regiões bem distintas do estado, do centro ao sul e ao leste.
Do lado japonês, há uma janela conjuntural. O país atravessa alta nos preços da carne suína e da carne de frango, cenário que costuma abrir espaço para fornecedores estrangeiros.
A novidade está na energia
O ponto realmente novo do encontro foi o biocombustível.
A cônsul-geral Yoriko Suzuki afirmou que empresas japonesas estão estudando a possibilidade de importar biocombustível do Brasil, e o mercado japonês tem enfatizado o interesse por produtos sustentáveis. É uma agenda que conversa diretamente com o que Mato Grosso do Sul vem construindo, entre expansão industrial e projetos de energia renovável.
Suzuki também demonstrou otimismo com a Rota Bioceânica, o corredor que deve encurtar o caminho da produção sul-mato-grossense até os portos do Pacífico. Para quem exporta para a Ásia, a diferença logística não é detalhe: é o que decide se o produto chega competitivo ou não.
O presidente da Fiems, Sérgio Longen, que acumula a função de cônsul honorário do Japão em Campo Grande, resumiu o sentido do encontro. "A gente tem conseguido estreitar as relações bilaterais e a vinda deles aqui nos aproxima ainda mais", disse.
O caminho de ida já tinha sido feito
A visita desta semana é a contrapartida de um movimento anterior. Em agosto de 2025, uma comitiva sul-mato-grossense esteve no Japão, incluindo passagem pela Expo de Osaka, numa missão focada em dois eixos: ampliar o mercado de proteína animal e atrair investimentos em energia renovável.
Naquela ocasião, a carne bovina tinha um argumento novo a favor. O estado havia conquistado o status de área livre de febre aftosa sem vacinação, credencial que pesa em mercados exigentes como o japonês, um dos maiores compradores de carne do mundo tanto em volume quanto em critério.
O governador Eduardo Riedel, que integrou a missão, disse na época que a viagem ia além da relação direta com empresas, apontando a construção de confiança institucional como objetivo em si. Longen, que também participou, defendeu proatividade na busca de novos mercados.
Um ano depois, quem atravessou o mundo foi o outro lado. É o tipo de simetria que costuma indicar que a conversa saiu do protocolo.
Por que isso importa para quem mora aqui
É tentador tratar missão comercial como assunto de gabinete. O efeito, porém, se distribui.
Exportação de frango é cadeia longa: envolve grão, integração com produtores, abatedouro, emprego industrial em cidades médias e transporte. Quando 70% de um corte específico depende de um único destino, qualquer alteração nas condições daquele mercado, sanitária, tarifária ou cambial, chega rápido ao chão de fábrica no interior. Diversificar não é discurso, é redução de risco.
O caso do biocombustível tem lógica parecida, com um detalhe adicional. Diferentemente do frango e da celulose, que já têm cadeia estabelecida, a energia limpa é um mercado em formação. Quem se posiciona cedo em um contrato de longo prazo com um comprador do porte do Japão tende a definir o desenho da cadeia, e não apenas a ocupar um lugar nela.
A celulose, por sua vez, entra na conversa num momento particular. O estado ganhou peso nacional na produção nos últimos anos, com investimentos industriais que mudaram a economia de municípios inteiros, especialmente no leste. Ter esse produto na mesa de uma negociação com a Ásia é consequência direta desse ciclo.
Cabe uma observação sobre a Rota Bioceânica, citada no encontro. O corredor não muda o que Mato Grosso do Sul produz, muda quanto custa entregar. Hoje boa parte da carga estadual destinada à Ásia sai por portos do Atlântico e contorna o continente. Encurtar esse trajeto até o Pacífico altera a margem de cada contêiner, e margem é o que decide se um fornecedor distante segue competitivo quando o comprador tem alternativas mais próximas. Para uma pauta concentrada em produtos de valor médio, como frango e celulose, esse detalhe logístico pesa tanto quanto a negociação comercial em si.
O que ficou combinado
A agenda saída do encontro inclui aumento das exportações de proteína animal, expansão da produção industrial de celulose e biocombustível no estado, e a realização de missões empresariais bilaterais.
Missões bilaterais é a parte a observar. Elas são o mecanismo pelo qual intenção vira contrato, e a periodicidade delas costuma ser o melhor termômetro de quão séria é a conversa. O efeito prático nas cidades do interior, onde ficam as plantas e os empregos, é acompanhado de perto pelo Cidades News, que cobre o dia a dia dos municípios que abastecem essa rota.
Por ora, o que existe é um mercado consolidado em carne, um mercado em expansão em celulose e uma porta entreaberta em energia. Não é pouco para uma sexta-feira.
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