O boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde (SES) na segunda-feira (10) fechou a 30ª semana epidemiológica com um número que já não cabe em nota de rodapé: 30 mortes confirmadas por chikungunya em Mato Grosso do Sul neste ano.
São 12.579 casos prováveis notificados no estado, dos quais 9.832 já foram confirmados. E há 114 gestantes com a doença confirmada.
Para efeito de comparação, a dengue — que costuma monopolizar a atenção pública e as campanhas — registrou no mesmo período 4.669 casos prováveis, 1.873 confirmados e um óbito confirmado, de um morador de Bonito, com outro ainda em investigação.
Ou seja: neste ano, em MS, a chikungunya tem cinco vezes mais casos confirmados que a dengue e trinta vezes mais mortes. O mosquito é o mesmo. A atenção que cada doença recebe, não.
O mapa das mortes tem um desenho
Os 30 óbitos confirmados estão distribuídos por nove municípios: Dourados, Bonito, Jardim, Fátima do Sul, Douradina, Guia Lopes da Laguna, Itaporã, Ponta Porã e Nioaque.
Vale olhar esse recorte com calma, porque ele não é aleatório. Quatro dessas cidades — Dourados, Fátima do Sul, Douradina e Itaporã — formam um bloco contíguo na região da Grande Dourados. Outras três — Bonito, Jardim e Guia Lopes da Laguna — ficam coladas na serra da Bodoquena, no eixo do turismo. Ponta Porã está na fronteira com o Paraguai, e Nioaque, no caminho entre os dois blocos.
O que esse desenho sugere é que a epidemia deste ano não se espalhou de forma uniforme pelo estado: ela se concentrou no cone sul e sudoeste, uma faixa que reúne cidades médias, forte circulação de pessoas e clima quente por mais meses do ano. Campo Grande, com quase um quarto da população do estado, não aparece entre os municípios com óbito confirmado neste boletim.
Por que a chikungunya é uma doença diferente da dengue
As duas são transmitidas pelo mesmo mosquito, o Aedes aegypti, começam parecidas — febre alta, mal-estar, dor de cabeça — e por isso muita gente trata as duas como sinônimo. Não são.
A diferença que mais pesa é a dor articular. Na chikungunya, a dor nas juntas costuma ser intensa desde o início, atinge principalmente punhos, tornozelos, dedos e joelhos, e pode persistir por semanas ou meses depois que a febre passou. É essa fase prolongada que tira gente do trabalho, gera afastamentos e enche ambulatório de ortopedia meses depois do pico da transmissão.
O risco de morte, por sua vez, se concentra em quem já tinha outras condições de saúde e em pessoas mais velhas — o que ajuda a explicar por que uma doença tratada popularmente como "dengue com dor nas juntas" acumulou trinta óbitos em oito meses.
As 114 gestantes
O número de gestantes com chikungunya confirmada é o dado que mais merece leitura cuidadosa do boletim. Cento e quatorze mulheres grávidas tiveram a doença confirmada em MS neste ano.
A recomendação prática, aqui, é simples e não substitui ninguém: gestante com febre, dor no corpo ou dor nas juntas deve procurar a unidade de saúde e informar que está grávida logo na recepção. A conduta em cada caso é decisão do serviço que acompanha o pré-natal — inclusive porque a automedicação, em qualquer paciente com suspeita de arbovirose, é justamente o que a SES pede que não se faça.
A vacina que existe é da dengue
Um detalhe do boletim costuma passar batido e gera confusão: os números de vacinação registrados se referem à dengue, não à chikungunya. O estado recebeu 241.030 doses e aplicou 223.322, sendo 201.349 no público-alvo definido para a campanha.
Não há, na rede estadual, campanha de vacinação contra chikungunya em curso. Contra essa doença, o que existe hoje em MS é combate ao vetor — e é por isso que a orientação repetida em todo boletim continua sendo sobre criadouro, e não sobre agulha.
O calendário joga contra nos próximos dois meses
Agosto e setembro são o fundo do poço da estiagem no estado, com umidade relativa despencando e pouca chuva. É fácil olhar para o quintal seco e concluir que não há água parada em lugar nenhum.
É exatamente aí que mora a armadilha. Os criadouros que sobrevivem à seca são os que ninguém vê: caixa d'água sem tampa, calha entupida, ralo pouco usado, bebedouro de animal, garrafa no fundo do quintal, planta em prato com água. Quando as primeiras chuvas voltam — normalmente entre o fim de setembro e outubro — a população de mosquitos encontra o terreno pronto e o ciclo recomeça com vantagem.
A janela para reduzir o estrago do próximo verão é agora, no mês em que parece que o mosquito sumiu.
O que a SES orienta
As três recomendações que o boletim repete são diretas:
- Procure a unidade de saúde ao primeiro sintoma. Febre, dor no corpo, dor nas juntas, manchas na pele. Não espere piorar.
- Não se automedique. Em suspeita de dengue ou chikungunya, remédio por conta própria pode agravar o quadro.
- Elimine recipientes que acumulem água. É a única barreira realmente eficaz contra as duas doenças ao mesmo tempo.
O boletim completo, com o detalhamento por município e por semana epidemiológica, é publicado pela SES e fica disponível para consulta pública. Vale acompanhar: em um ano como este, o número da semana que vem diz mais sobre o próximo verão do que qualquer previsão.