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Desmatamento no Pantanal cai 65% e é a maior queda entre os biomas: o que os 291 km² dizem sobre MS

Desmatamento no Pantanal cai 65% e é a maior queda entre os biomas: o que os 291 km² dizem sobre MS

O bioma que ocupa boa parte do oeste de Mato Grosso do Sul perdeu 291 km² de vegetação nativa no último ciclo medido pelo Inpe. É pouco perto do Cerrado, que sozinho responde por 7.235 km². Mas o que chama atenção não é o tamanho: é a direção. A queda foi de 65% em relação ao período anterior — a maior redução proporcional entre todos os biomas brasileiros.

Os dados vêm do Prodes, o projeto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais que mede, por satélite, o corte raso da vegetação nativa. No conjunto do país, o desmatamento caiu 20%.

O que o Prodes mede (e o que ele não mede)

Vale entender o instrumento antes de comemorar o número. O Prodes registra corte raso: a supressão total da vegetação em uma área, aquilo que aparece no satélite como solo exposto onde antes havia mata. O ciclo não segue o calendário civil — vai de agosto de um ano a julho do seguinte, justamente para atravessar a estação seca inteira dentro da mesma janela.

Isso significa que degradação florestal, corte seletivo e — este é o ponto importante para o Pantanal — a área atingida por incêndios não entram necessariamente nessa contabilidade. Uma planície que queimou pode continuar registrada como vegetação nativa, ainda que empobrecida. São dois fenômenos diferentes, medidos por réguas diferentes.

Por que o Pantanal despencou tanto

Parte da explicação está na base de comparação. O ciclo anterior foi excepcionalmente ruim no Pantanal, num período em que o fogo e a seca extrema empurraram para cima toda a série de indicadores ambientais da região. Quando o ano seguinte vem menos severo, a variação percentual fica espetacular mesmo que a área absoluta permaneça relevante.

Ou seja: 65% é uma notícia boa e merece ser dita assim. Mas é uma queda medida contra um piso muito alto. O teste real vem nos próximos dois ciclos, quando a comparação for feita contra um ano já normalizado.

O quadro nacional, bioma por bioma

Segundo os dados do Prodes divulgados pelo Inpe, o ciclo fechou assim:

  • Pantanal: 291 km², queda de 65% — a maior redução proporcional
  • Pampa: 305,48 km², queda de 41,7%
  • Caatinga: 2.289,54 km², queda de 34,3%
  • Amazônia: 5.111 km², queda de 15,8%
  • Mata Atlântica: 402,36 km², queda de 15,32%
  • Cerrado: 7.235 km², queda de 11,5% — segue como o bioma mais desmatado do país

O Cerrado é o dado que incomoda. Mesmo caindo, ele responde sozinho por mais área desmatada do que Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal somados. E o Cerrado também é Mato Grosso do Sul: a porção leste e nordeste do estado está inteira dentro dele.

O sistema de alerta já aponta para o próximo ciclo

Enquanto o Prodes consolida o passado, o Deter — sistema de detecção em tempo quase real — vai indicando o presente. E o sinal, por ora, é o mesmo. No período de agosto de 2025 a julho de 2026, os alertas somaram 2.874,38 km² na Amazônia, uma queda de cerca de 36% e o menor volume da série histórica do sistema. No Cerrado, foram 5.119,46 km², recuo de 7,8% e o menor patamar em cinco anos.

Alerta não é desmatamento consolidado — é indício, e uma parte dele não se confirma na medição anual. Mas a tendência de dois sistemas independentes apontando para o mesmo lado é mais robusta do que qualquer um deles isolado.

O que isso muda para Mato Grosso do Sul

Três coisas, na prática.

A primeira é comercial. O rastreamento de origem virou barreira de acesso a mercado. Compradores europeus e asiáticos de carne, soja e couro passaram a exigir comprovação de que o produto não vem de área desmatada, e o número do Inpe é a referência que o comprador consulta. Um bioma com queda de 65% na estatística oficial é um argumento que o exportador sul-mato-grossense pode usar — e que ele não teria dois anos atrás.

A segunda é o turismo. Bonito, a Serra da Bodoquena e o Pantanal vendem exatamente aquilo que o satélite está medindo. A economia do ecoturismo depende de paisagem íntegra, e o setor no Brasil vive um momento de expansão que já se traduz em números de visitação e receita — vale acompanhar como o turismo de natureza vem crescendo no país e o que isso cobra em infraestrutura.

A terceira é a mais delicada. A queda no corte raso não protege o Pantanal do fogo. As duas coisas caminham juntas com frequência, mas não são a mesma coisa — e a temporada crítica de queimadas na planície costuma se concentrar justamente entre agosto e outubro, exatamente o período em que este texto está sendo publicado. Foi por isso que o estado suspendeu a queima controlada até o fim do ano.

O que observar daqui para frente

Dois indicadores merecem atenção nos próximos meses. O primeiro é o volume de focos de calor na planície pantaneira durante a seca — que dirá se a redução do desmatamento está acompanhada de uma temporada de fogo mais branda ou se apenas trocamos um problema por outro. O segundo é o comportamento do Cerrado sul-mato-grossense, onde a fronteira agrícola continua ativa e onde a queda de 11,5% é a menor entre todos os biomas.

O número de hoje é bom. Ele só não deve ser lido como ponto de chegada.

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