A área queimada no Pantanal de Mato Grosso do Sul cresceu 770,7% na primeira metade de 2026 na comparação com o mesmo período do ano passado. Entre 1º de janeiro e 15 de julho, o fogo consumiu 58.878 hectares do bioma no estado, contra 6.762 hectares registrados em 2025. Os dados são do monitoramento estadual conduzido pelo Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima (Cemtec) e pela assessoria do Corpo de Bombeiros Militar, com base em informações do próprio Bombeiro, do Instituto de Meio Ambiente (Imasul) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O salto nas estatísticas veio acompanhado de fogo ativo no chão. Até meados de julho, quatro incêndios seguiam em atividade na região de Corumbá, na faixa de fronteira entre o Brasil e a Bolívia, somando uma área de influência de 13,7 mil hectares. É o primeiro grande foco da estação seca no Pantanal sul-mato-grossense neste ano, e ele reacende um temor que a região conhece bem.
O que os números mostram
O contraste entre 2026 e 2025 é o que mais chama atenção. Não se trata de uma variação de rotina: a área atingida pelas chamas praticamente se multiplicou por oito em doze meses. Os focos de calor detectados por satélite também subiram, de 69 para 149 no mesmo intervalo, uma alta de 115,9%.
Vale separar duas medidas que costumam ser confundidas. O foco de calor é o ponto quente flagrado pelos satélites, um indício de que há fogo naquele lugar. Já a área queimada mede a extensão de terra efetivamente varrida pelas chamas. Os dois indicadores subiram, mas a área queimada disparou muito mais rápido que o número de focos, sinal de que cada incêndio deste ano tem se alastrado por superfícies maiores antes de ser contido, alimentado pela vegetação ressecada.
O acompanhamento é organizado dentro do arranjo estadual de combate ao fogo, que reúne o Centro Integrado de Coordenação Estadual e o Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo. Para vigiar os focos ativos na fronteira, as equipes se apoiam ainda no Painel do Fogo, mantido pelo Censipam, o centro que opera o Sistema de Proteção da Amazônia.
Fogo controlado, mas ainda vivo na fronteira
Os incêndios ativos começaram a partir de 16 de julho, na região do Forte Coimbra, em Corumbá, e avançaram pela divisa com a Bolívia. Parte das chamas cruzou para o território boliviano, e é de lá que vem a principal preocupação das equipes.
Em nota, o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul afirmou que a situação estava sob controle, mas alertou para o risco de retorno do fogo. "O incêndio está controlado, mas ainda ativo no território boliviano. A tendência é de que evolua lentamente, diante das previsões climáticas, em direção ao território brasileiro", informou a corporação, acrescentando que mantinha equipes no local em monitoramento constante.
A ressalva não é retórica. No Pantanal, um incêndio dado como controlado pode voltar a ganhar força em questão de horas quando o vento muda e a umidade despenca. Por isso a linguagem cautelosa dos bombeiros: controlado não é o mesmo que apagado.
A seca que empurra as chamas
O que transforma um foco isolado em desastre é o clima. A previsão para a segunda metade de julho no Pantanal era de temperaturas entre 34°C e 38°C, umidade relativa do ar oscilando entre 10% e 30% e nenhuma chuva à vista. Some-se a isso o vento, que chegava a rajadas superiores a 80 km/h em alguns pontos, e o resultado é o cenário perfeito para o fogo correr.
Umidade abaixo de 20% é a mesma faixa de deserto. Com a vegetação nessa condição, qualquer faísca — de origem natural ou provocada — encontra combustível pronto. O período mais crítico ainda está por vir: para a janela entre agosto e outubro, o monitoramento estadual classifica áreas do Pantanal em "alerta alto" para incêndios, justamente o coração da estação seca no bioma.
Estado de emergência e resposta
O agravamento não pegou o poder público totalmente de surpresa. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima havia declarado estado de emergência ambiental para o Pantanal, com validade de abril a dezembro de 2026, exatamente por causa do risco elevado de queimadas ao longo do ano.
No lado da resposta, o Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul informou ter mobilizado 402 militares em ações de prevenção, preparação e combate ao fogo ao longo de 2026. Um dado, porém, oferece uma leitura menos alarmante em meio aos números ruins: no acumulado do ano, o estado registrou 1.170 ocorrências de incêndio em vegetação, 16,7% a menos que as 1.405 do mesmo período de 2025. Ou seja, houve menos incêndios, mas os que ocorreram no Pantanal foram muito mais extensos.
O Pantanal como exceção
Um ponto costuma passar despercebido no debate sobre fogo em Mato Grosso do Sul: nem todos os biomas do estado estão piorando. Pelo contrário. No Cerrado, a área queimada caiu 44,5% na mesma janela de 2026, de 24.783 para 14.615 hectares. Na Mata Atlântica, a redução foi de 12,7%.
Isso desloca o holofote para onde ele precisa estar. O problema deste ano não é generalizado pelo território sul-mato-grossense; ele está concentrado no Pantanal, e mais especificamente na região de fronteira de Corumbá. É ali que a soma de seca extrema, vegetação inflamável e proximidade internacional cria um nó difícil de desatar, já que boa parte do fogo se origina ou se refugia do outro lado da linha divisória, fora do alcance direto das equipes brasileiras.
Por que isso importa para Mato Grosso do Sul
O Pantanal não é paisagem de cartão-postal apenas. Ele é economia viva para o estado. A pecuária pantaneira, criada de forma extensiva nas planícies alagáveis, depende diretamente da saúde das pastagens nativas. O turismo de Corumbá, de Miranda e da Estrada Parque movimenta hotéis, pousadas, guias e barqueiros que vivem da pesca esportiva e da observação de fauna. E a fama internacional do bioma como maior planície alagável do planeta é um ativo que Mato Grosso do Sul vende ao mundo, da pauta ambiental à Rota Bioceânica, que atravessa justamente essa porção do estado rumo ao Pacífico.
Cada temporada de fogo cobra um preço que vai além do hectare queimado. Fauna dizimada, fumaça que fecha aeroportos e estradas, prejuízo à saúde de quem respira o ar carregado e um estrago de imagem que demora anos para cicatrizar. A memória das queimadas devastadoras de 2020, o pior ano já registrado no bioma, ainda pesa na região, e o número de 770% deste ano funciona como um sinal de alerta acendendo cedo demais.
A boa notícia, se é que existe uma, é que a estação seca ainda está no começo. A má é exatamente a mesma: se o pico dos incêndios no Pantanal costuma vir entre agosto e outubro, e o estado já acumula quase 59 mil hectares queimados antes disso, os próximos meses vão definir se 2026 entra ou não para a lista dos anos que Mato Grosso do Sul preferiria esquecer.