A Arquidiocese de Campo Grande abre nesta terça-feira (20), às 18h, na Paróquia São José, o inquérito diocesano sobre a vida e as virtudes do padre salesiano João Crippa. A investigação, autorizada pelo Vaticano, vai reunir documentos e testemunhos que poderão contribuir para a beatificação e a canonização do religioso. A cerimônia é aberta ao público e terá missa às 19h, presidida pelo arcebispo metropolitano Dom Dimas Lara Barbosa.
É a primeira vez que a Arquidiocese de Campo Grande tem um religioso reconhecido como Servo de Deus, título dado a pessoas cuja trajetória passa a ser investigada pela Igreja Católica para possível reconhecimento da santidade. Crippa participou da criação de instituições que marcaram a formação de Campo Grande.
Um processo que começa com perguntas, não com certezas
A abertura do inquérito costuma gerar mal-entendidos. O rito é investigativo, não declaratório: não se trata de uma cerimônia que confirma santidade, mas do pontapé inicial de uma apuração que pode durar anos e depende de etapas rigorosas em Roma.
O valor do processo está em dois planos. No histórico, ele obriga a Igreja a reunir documentos, depoimentos e registros sobre uma figura que atravessa a formação urbana de Campo Grande. No espiritual, mobiliza a memória católica sul-mato-grossense em torno de uma trajetória de serviço, educação e assistência social.
Quem foi o padre João Crippa: o missionário que ajudou a formar a Capital
João Crippa nasceu na Itália e chegou à região quando Mato Grosso do Sul ainda fazia parte de Mato Grosso. Como missionário salesiano, atuou em um período de urbanização incipiente, em que a presença religiosa se confundia com a organização de serviços básicos. A trajetória dele se conecta à própria formação do estado, tema que rende boas leituras sobre a história de Mato Grosso do Sul, da divisão do estado aos dias de hoje.
Sua marca em Campo Grande aparece em três frentes:
- Educação: participou da criação do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora.
- Vida paroquial: esteve envolvido na constituição da Paróquia São José, no Centro.
- Assistência social: colaborou na organização da Santa Casa de Campo Grande.
O religioso morreu em 1941, em Três Lagoas. Seus restos mortais foram transferidos para a Capital em 1951, o que ajudou a manter viva a lembrança de sua atuação entre fiéis e ex-alunos das obras salesianas.
O caminho até Roma: passo a passo do processo de beatificação e canonização
O percurso canônico tem etapas definidas. Entender cada uma evita expectativas indevidas.
- Fase diocesana: é o que começa agora. O bispo instaura o inquérito, que ouve testemunhas, recolhe documentos e verifica a fama de santidade e as virtudes do Servo de Deus.
- Envio à Congregação para as Causas dos Santos: o processo segue para o Vaticano, onde passa por análise.
- Venerável: se as virtudes forem reconhecidas como heroicas, o Servo de Deus recebe o título de Venerável.
- Beatificação: exige a comprovação de um milagre atribuído à intercessão do candidato.
- Canonização: requer um segundo milagre e a declaração papal.
Cada etapa é autônoma. Avançar em uma não garante avanço na seguinte.
O que o inquérito diocesano não é: desmontando expectativas
- Não é declaração de santidade. O processo apenas investiga.
- Não antecipa resultado. A fase local é o começo, não a conclusão.
- Não substitui o rigor documental. Sem provas históricas consistentes, o processo não avança em Roma.
- Não é julgamento da pessoa. O foco está na fama de santidade e nas virtudes, não em condenação ou absolvição.
A prudência pastoral recomenda evitar interpretações apressadas, especialmente em um tema que mobiliza devoção popular.
Por que este processo importa para os católicos de Mato Grosso do Sul
O ineditismo é o primeiro motivo: nunca a Arquidiocese de Campo Grande teve um Servo de Deus. Isso fortalece a identidade local e a memória da Igreja no estado, que costuma ter seus processos narrados a partir de grandes centros.
Há também o aspecto simbólico. A trajetória de Crippa, ligada à educação e à assistência, serve de exemplo de santidade cotidiana. E o processo tende a aproximar comunidades, paróquias e instituições que guardam registros da atuação salesiana, valorizando o patrimônio histórico-religioso da Capital.
O que esperar daqui para frente: prazos, desafios e o papel dos fiéis
Não há prazo público definido para a fase diocesana. A duração depende da complexidade do material, do número de testemunhas e da disponibilidade de documentos. O desafio é justamente esse: preservar arquivos e localizar pessoas que possam contribuir com relatos verificáveis.
Os fiéis podem acompanhar o processo de forma informada, participando da celebração desta terça-feira e evitando tratar a abertura do inquérito como beatificação. A colaboração mais útil, neste momento, é a de quem guarda registros, cartas, fotografias ou memórias familiares ligadas ao missionário.
No longo prazo, o significado para a Arquidiocese e para Campo Grande é o de consolidar uma memória institucional que também conta a história da cidade.
Conclusão: mais do que um título, um convite à reflexão
O inquérito diocesano é um caminho de discernimento, não um atalho para a santidade. A abertura nesta terça-feira marca o início de uma apuração que exige serenidade, rigor e acompanhamento informado.
Independentemente do desfecho em Roma, a figura do padre João Crippa já pertence à história de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul. O processo é a oportunidade de conhecê-la com mais precisão.